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Psicologia da liderança: por que um líder se corrompe?

Não é de hoje que convivemos com a máxima de que o poder pode corromper seus líderes, seja nas estruturas menores ou ainda nas grandes organizações.

Da antiguidade aos dias de hoje, acadêmicos têm procurado estudar as causas da corrupção e o quanto ela permeia todas as formas de poder. Assim sendo, o tema de uma nova pesquisa, que será publicada ainda neste ano no The Leadership Quaterly (Elsevier), procurou analisar exatamente esse processo.*

Interessante notar que, ao se nomear um novo líder, muitas vezes, nossas escolhas são baseadas em fatores que são projetados na forma de características ideais que esses indivíduos deveriam possuir, como honestidade, integridade e lealdade, por exemplo. No entanto, a dúvida que a investigação procurou averiguar foi: uma vez que os dirigentes chegam ao poder, seriam eles capazes de se manterem leais aos princípios pelos quais foram escolhidos?

Para analisar isso, os autores realizaram dois experimentos (um com 478 participantes e o outro com 240 participantes), onde a questão era averiguar se o poder poderia, de fato, corromper alguém ou, ao contrário, se os corruptos seriam aqueles mais atraídos pela liderança.

E assim a pesquisa se seguiu.

Depois de preencher alguns testes psicotécnicos para avaliar as diferenças individuais (honestidade etc), os indivíduos foram solicitados a integrar um experimento chamado “jogo do ditador”, onde os participantes receberiam, em certo momento, o controle total a respeito dos pagamentos que deveriam ser feitos para si mesmos e para seus pares.

Além disso, o jogo permitia que os “chefes” tivessem a escolha de tomar decisões que visassem mais o benefício social ou ainda que não favorecessem tanto o grupo – neste caso, diminuindo os pagamentos realizados aos outros participantes do jogo -, enquanto seu próprio salário, obviamente, poderia ser aumentado.

Os resultados mostraram coisas interessantes.

A primeira delas foi que o poder pode afetar sim o comportamento de um líder e o faz, progressivamente, agir de maneira cada vez mais antissocial (pelo menos, no experimento). O mais curioso foi notar que, quanto mais poder esses membros recebiam ao longo das provas, mais violadas foram as normas sociais dos testes.

Assim, segundo os pesquisadores, percebeu-se que o poder teve a força de reduzir a percepção psicológica negativa de atos ruins praticados pelos líderes sobre os demais membros do jogo.

Os resultados também mostraram que, mesmo aqueles que tinham uma predisposição inicial para a integridade e que declaram que um líder não deveria transgredir as regras sociais, também sucumbiram aos efeitos corruptores do poder. Ou seja, mesmo aqueles que defendiam um comportamento mais honesto, não foram, ao longo do tempo, protegidos contra os efeitos da corrupção.

Outra hipótese procurou relacionar a presença do hormônio testosterona com o comportamento antissocial. Interessante destacar que esta variável já havia sido observada em outras pesquisas a respeito do comportamento egocêntrico, ou seja, quanto maiores eram os níveis de testosterona, menor a empatia desses líderes em relação aos sentimentos e às emoções dos outros, o que poderia reforçar ou ainda ser um elemento chave em ações ligadas à corrupção de uma pessoa.

A conclusão?…

Quanto maiores forem as possibilidades de uma organização controlar os atos de seus dirigentes, menores serão as possibilidades de ocorrerem os excessos na governança. Obviamente que tal controle pode diminuir a agilidade das decisões e aumentar os custos, entretanto, esses custos seriam inexpressivos, se comparados aos comandos inadvertidos dos líderes corruptos e suas consequências.

Seria possível considerar que nosso passado histórico de assumir o comando do bando nos tenha predisposto a uma inclinação natural para ganhar a qualquer preço?…

Ou ainda: quais seriam as implicações desses achados sobre a prática da política pública?

Enfim, para se pensar…

Finalizam os autores da investigação: “As organizações devem limitar o quanto os líderes podem beber do cálice sedutor do poder”.


Cristiano Nabuco
é psicólogo e atua em consultório particular há 27 anos. Tem Pós-doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Foi coordenador da Equipe de Psicologia do PRO-AMBULIM/IPq/HC/FMUSP e presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP. Publicou 8 livros sobre psicologia e saúde mental.

Para tirar dúvidas ou ver a pesquisa na íntegra, acesse: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1048984314000800
(*) Assista o vídeo explicativo da investigação:
 
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